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Na Imprensa

Veículo: Revista Ícaro Brasil
Data: 04/2003

Teoria das Restrições na Prática

Para escrever em Ícaro Brasil sobre empresas como a Datasul, que fornecem soluções empresariais, o ideal é ter um repórter que conheça em profundidade os conceitos embutidos nesses serviços. Certo? Errado.

A não ser que o artigo seja para uma revista especializada, expressões como "One-to-One CRM. opera ASP Datasul BI" não precisam ser detalhadas para a maioria dos presidentes e diretores de empresa que lêem nossa revista. Para eles interessa saber que a premiada Datasul (situada em Joinville) é a líder brasileira no fornecimento de soluções empresariais, que seu faturamento bruto no network foi de R$192 milhões em 2002.

E que Miguel Abuhab, 58 anos, diretor-presidente, engenheiro formado pelo ITA, tem idéias claras sobre a administração de seu negócio, não tem medo de ser original e se preocupa bastante com os conceitos da filosofia empresarial.

Nesse campo, seu guru é o israelense Eliyahu Goldratt, a quem ele se refere com entusiasmo digno de um seguidor (é sócio-fundador da Goldratt Institute, AGI).

Miguel Abuhab fala de sua família numerosa, de oito irmãos (dos quais ele é o mais novo), de pai israelense e mãe turca. Sua mudança de São Paulo para Joinville deveu-se à Consul, onde desenvolveu planejamento estratégico e sistemas pioneiros de informação por dez anos, numa época em que os programas de computadores ainda precisavam ser desenvolvidos à unha. Ao sair da Consul, Abuhab funda a Datasul, tendo a Weg como cliente que o prestigiou desde o início.

Em 1988 lança o primeiro sistema gerenciador de banco de dados, o que dá à Datasul uma grande distância em relação aos concorrentes. Daí para frente, o crescimento da empresa é geométrico.

Uma Franquia Revolucionária

Mais tarde vieram as multinacionais SAP (alemã) e BAAN (holandesa). Encontraram a empresa de Abuhab na liderança do mercado e começaram a atrair, por meio de altos salários, sua mão-de-obra especializada treinada na própria Datasul. O que leva a empresa a enfrentar dificuldades sérias em 1998, quando vende um terço de seu capital para investidores de um fundo dos Estados Unidos, participação societária que segue existindo. A partir daí, para enfrentar a concorrência, foi criado um arrojado, original e inédito modelo de gestão na empresa, que deu muito certo.

Ao final da reorganização, os funcionários foram convidados constituir suas próprias firmas (utilizando a metodologia Datasul), que receberam prontas para funcionar, em sistema de franquia. Os que toparam deixaram de ser empregados. Já não ganhavam mais um fixo, mas uma porcentagem sobre as vendas que realizavam.

"Ao final, de 700 ficamos com 100 funcionários apenas. Com isso foi reduzido nosso custo fixo para um sétimo do que era. Hoje somos um caso de sucesso e passamos a ser referência em universidades americanas, como a Thunderbird, no Arizona", observa com orgulho Abuhab.

A META, UM LIVRO DE GOLDRATT

Faz 18 anos que Eliyahu Goldratt lançou A Meta, apresentando a Teoria das Restrições, um conceito fácil de apreender, que pode ser ilustrado por uma questão muito simples: "Por que o check-out e o check-in dos hotéis são sempre ao meio-dia, como prazo limite?". Segundo o conceito de Goldratt, antes do computador havia uma limitação tecnológica que derrubou as barreiras, mas pessoas continuaram a se comportar como se elas ainda existissem. Assim, quem viaja para o exterior e chega a Nova York às 6 da manhã, recebe do hotel a informação de que o apartamento só estará pronto às 2 da tarde. "O cara é cliente a partir do check-in, antes disso ele não é ninguém", acrescenta Abuhab. Nada compatível com um bom padrão de serviços, num setor de tanta concorrência como o hoteleiro. A nova regra, facilmente aplicável, seria a de informar ao hotel, com antecedência, a hora de entrada e de saída, sendo feita a cobrança pelas horas efetivas de hospedagem.

Goldratt, ao definir essas ortodoxias, diz que a tecnologia é necessária para que as mudanças surjam, mas não é suficiente, sendo preciso mexer na cultura e nas regras de cada negócio.

"Em cada empresa que a gente vai", diz Abuhab, "encontra as ortodoxias." "E para identificá-las existe o projeto holístico, onde o problema passa a ser visto como um todo. São consultorias desenvolvidas dentro da Goldratt Cosulting, baseadas em conceitos que a Datasul também aplica."

GERAÇÃO DE EMPREGOS

A Teoria das Restrições, segundo Abuhab, se aplica também à macroeconomia:
"É o caso da geração de empregos, tão comentada na última eleição presidencial, onde se falava, com naturalidade, em criar 15 milhões de empregos. Mas nunca ninguém falou como é que se faz para os tais empregos surgirem", continua o presidente da Datasul. "Para termos empresas saudáveis, é preciso que elas sejam competitivas, o que equivale a automatizar e demitir. Por outro lado, para a empresa ser saudável, precisa ter consumidores, o que depende de manter e gerar empregos. Isso é um conflito, que faz com que o objetivo não seja atingido. Há 20 anos a gente aprende que a empresa tem de ser competitiva. Com isso criamos o nosso ótimo local, onde cada um define o seu próprio espaço, trabalhando na competitividade. Cada um deles é como o ar-condicionado, que esfria dentro, mas esquenta fora, o que não é um problema para quem está no fresquinho, ou seja, no ótimo local. No Brasil de hoje, por exemplo, as empresas produzem cinco vezes mais, com cinco vezes menos pessoal. Então, se o problema do país fosse competitividade, estava resolvido. Entretanto, a campanha de que o país ainda necessita é a da Fome Zero", observa Abuhab, que nesse ponto cita uma frase de Goldratt, segundo o qual, "quando se está num buraco, a primeira coisa a fazer é parar de cavar". E adiciona um exemplo prático à tese do autor. "Se a competitividade fosse a saída para os problemas do Brasil, eles estariam resolvidos. Mas, ao contrário, não estamos resolvendo os problemas da sociedade. Continuamos a cavar nossos buracos e a falar em competitividade. Em resumo, cada empresário está pensando em seu ótimo local."

POLUIÇÃO DA HUMANIDADE

Não se pensou em alguma regra para o ótimo global. "Um produtor de álcool compra uma colheitadeira e põe 100 caras na rua, ou seja, seus potenciais consumidores. Depois se queixa dos roubos, seqüestros etc. Não adianta demitir esses trabalhadores, se a conseqüência é ter de dar comida depois, no Fome Zero...
Num artigo que escrevi depois do 11 de setembro, introduzi o conceito da poluição da humanidade, onde o mundo ainda não percebeu que a automação indiscriminada mata como a bomba atômica, só que no longo prazo. Esse é o discurso que eu gostaria que Lula fizesse numa de suas reuniões de cúpula internacionais. No Brasil, as regras que cada empresário segue não são compatíveis com o ótimo global que nós queremos. Mas a sociedade acaba pagando, de forma indireta, o custo daqueles que foram mandados embora". Prossegue Abuhab: "A primeira coisa a fazer em nosso país é tirar os encargos sobre os salários, o que desestimularia a automação em substituição à mão-de-obra. Em termos mundiais, assim como existe uma ISO 14.000 para o ambiente, devia-se proibir, pela ONU, o emprego de equipamentos de automação que eliminassem os empregos de nível mais baixo. Se os Estados Unidos comprassem tapetes manufaturados no Afeganistão, em vez de ter tantas automações em seu próprio país, quem sabe haveria mais gente por ali fazendo tapetes, e, em conseqüência, tendo renda para consumir. A alternativa é terrorismo, o radicalismo, a prostituição."

IDENTIFICAR E EXPLORAR A RESTRIÇÃO

"Quem fabrica baterias é obrigado a reciclar o seu produto". Acrescenta o entrevistado: "deve recolher a bateria antiga porque ela polui o ambiente com seu ácido. Na humanidade, não. A poluição criada pelo desemprego é jogada no ambiente. Tem de ter um item na política industrial de como gerar consumidores. Todo mundo demite e acha que quem vai comprar o seu produto é o funcionário... do outro", completa.
Abuhab detalha a Teoria das Restrições, que diz o seguinte: primeiro, identificar a restrição - numa fábrica em que dez máquinas produzem 100 peças por hora, existe uma que só produz 80. Então, aquela máquina que faz 80 por hora é o gargalo, a restrição. Em segundo, explorar a restrição: muitas empresas acham que a primeira solução é eliminá-la, ou seja, livrar-se da máquina que produz menos. Só que é possível explorar tal restrição. Ampliando o conceito, se uma empresa dá lucro, operando a 60% de sua capacidade, resulta que os 40% da capacidade ociosa poderiam ser utilizados sem pagar custos fixos, ainda gerando lucro. O raciocínio correto, no caso, seria o de lançar um outro produto barato, utilizando aquela capacidade, que poderia competir até com a China, porque só vai ser cobrada a mão-de-obra. Todavia, na escola se ensina que o custo existente deve ser rateado por toda a produção. Mas, num caso aplicado da Teoria das Restrições, segundo Abuhab, "é possível competir, mantendo um determinado nível de emprego, adotando soluções mais lógicas, sem demitir."

"Veja o Brasil, um país que necessita produzir, mas tem muitas empresas abaixo da capacidade. Não pode!", inflama-se o presidente da Datasul. "Esses conceitos de Goldratt ensinam a explorar a capacidade instalada, explorar a restrição", conclui Miguel Abuhab, um empresário que cuida muito bem do seu ótimo local, mas sempre lutando pelo ótimo global.

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® Miguel Abuhab 2004. Todos os direitos reservados.