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Na Imprensa

Veículo: Revista IstoÉ Dinheiro
Data:20/11/02

O Pregador Anti-Software

Miguel Abuhab, da Datasul, ficou rico vendendo programas de computador, mas agora acredita que eles deixaram de ser estratégicos dentro das companhias

Duda Teixeira

O paulista Miguel Abuhab, 58 anos, ganhou muito dinheiro com tecnologia. Nos últimos 24 anos, ele montou, em Joinville, Santa Catarina, a segunda maior empresa do mercado brasileiro de softwares, que ajudam companhias a organizar sua rotina administrativa. A Datasul, a empresa de Abuhab, fatura US$ 41 milhões por ano, mas tudo pode mudar. Seu fundador acredita ter descoberto a fórmula mágica na qual os softwares perderam a importância estratégica que têm hoje. Influenciado pelas idéias do guru israelense Eliyahu Goldratt, o dono da Datasul quer vender serviços de consultoria e treinamento com base na Teoria das Restrições, que aposta que o crescimento de uma empresa está diretamente relacionado com identificação e eliminação de gargalos no seu processo produtivo. "Estou falando na possibilidade de duplicar ou triplicar o faturamento para quem acreditar nesses princípios", prega Abuhab.

Ele está tão confiante que nas próximas semanas fechará o primeiro contrato de risco baseado nas teses de Goldratt. O cliente pagará 10% do valor do contrato como entrada e a Datasul, em parceria com a Goldratt Consulting, fornecerá o software e o treinamento. O pagamento dos outros 90% ficará a critério do próprio cliente, dependendo de qual for a sua avaliação do serviço. "Não vejo novidade alguma. Desde que o mundo existe há o contrato de risco", afirma Laércio Cosentino, presidente da Microsiga, a líder do mercado dos softwares corporativos. "Acho uma atitude arriscada porque uma empresa que pretende atuar em diferentes nichos de mercado não pode seguir uma única corrente de pensamento."

Abuhab pensa exatamente o contrário. Para divulgar as novas idéias, ele entrou no mundo das palestras para executivos. Uma atividade que lhe toma alguns dias por semana. Com um livro embaixo do braço e uma pilha que o acompanha nessas apresentações, o fundador da Datasul fala com entusiasmo dos méritos da Teoria das Restrições e em algumas situações assume feições quase messiânicas contrariando seu estilo sério que o tornou conhecido no mercado. A Datasul, por sua vez, vem incorporando aos softwares os novos conceitos, que já funcionam na Schulz, 3M, Bosch e Coteminas.

Por mais lógicas que pareçam as teses do guru israelense, ele será sempre mais um num universo onde "visionários" chegam e desaparecem das prateleiras das livrarias em um ritmo frenético. "Isso não é técnico, é quase religioso", diz Fernando Meirelles, professor da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo.

A adesão da Datasul ao novos princípios pode ser explicado por razões de mercado. Nunca a concorrência esteve tão acirrada e nunca as empresas resistiram tanto a comprar esses tipos de programas de gestão. Tanto as brasileiras Datasul e Microsiga, que conseguiram enfrentar a concorrência estrangeira nesse setor, como as gigantes SAP e Siebel estão com dificuldades.

Isso porque, ao longo da implementação, o software acaba ficando pequeno perto de todo o trabalho de treinamento e consultoria que é realizado ao seu redor. No final, não dá para saber se os resultados foram fruto do programa ou não. Assim, ao avançar sobre esses outros nichos, a Datasul sai na frente dos parceiros e pode estar garantindo sua sobrevivência no futuro. "O que estamos fazendo agora determinará o valor da empresa daqui a três anos", diz Abuhab. É um risco que ele pretende correr.

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® Miguel Abuhab 2004. Todos os direitos reservados.