Veículo: Revista Exame/Edição 791
Data: 7/5/03
O
patriarca do Software
Miguel Abuhab, fundador da Datasul, se afasta
pela segundo vez do dia-a-dia da empresa - mas,
com quatro empreendimentos paralelos, "seu
Miguel" ainda tem muito trabalho pela frente
"SEU MIGUEL." É com um misto
de respeito e admiração que
os funcionários da Datasul se referem
a Miguel Abuhab. Não é para
menos. Abuhab é um dos pioneiros da
indústria de software nacional. A prova
está no saguão de entrada da
empresa, em Joinville: um computador do tamanho
de uma geladeira industrial. A máquina
em que o paulistano Abuhab começou
a trabalhar, nos anos 70, antiga Cônsul.
Desde aquela época envolvido com tecnologia
para o mundo corporativo, Abuhab viu de tudo.
A empresa que fundou há 25 anos emprega
2500 funcionários e registrou faturamento
de 192 milhões de reais em 2002.
Agora, o patriarca do software nacional está
pronto para uma segunda tentativa. Abuhab
nomeou um sucessor para cuidar do dia-a-dia
da companhia. Vai passar a ocupar a presidência
do conselho de administração.
Mas não se trata de aposentadoria.
Abuhab quer tempo para se dedicar a outros
empreendimentos. Qualidade essenciais para
isso ele tem de sobra: energia e iniciativa.
Mas também será necessária
uma dose igualmente importante de desprendimento.
Descrito unanimemente como executivo visionário
e empreendedor, Abuhab precisa mostrar que
é capaz de se distanciar da Datasul.
Não só para permitir que a companhia,
líder no segmento de sistemas integrados
de gestão (ERPs) para médias
empresas, estabeleça uma política
de governança corporativa mas também
para tocar outros projetos ambiciosos na área
de tecnologia, que incluem telemedicina, uma
empresa de serviços e uma fábrica
de software.
O sucessor de Abuhab é Jorge Steffens,
um catarinense de 37 anos que trabalha na
Datasul desde os 16. Antes de falar nele,
porém, é preciso lembrar que
esta não é primeira vez que
Abuhab, 58 anos, tenta se afastar do negócio.
No primeiro ensaio, que pouco mais de dois
anos e acabou em janeiro do ano passado, ele
chamou Carlos Sá, um executivo d mercado
com experiência em multinacionais de
tecnologia.
Na Datasul, todos são reticentes quando
o assunto é a passagem de Sá.
Diplomaticamente, dizem que foi um passo necessário
na estruturação da empresa.
Em 1999, a Datasul vendeu parte do capital
para o fundo de investimento americano Westsphere
(hoje administrado pelo banco ING Barings).
A intenção era preparar a empresa
para a abertura de capital. Mas aí
veio a crise nos mercados acionários,
e a idéia ficou em segundo plano. O
ritmo imposto por Sá, um executivo
descrito como workaholic, surpreendeu muita
gente acostumada a ir para o trabalho de bicicleta
e a almoçar em casa.
"O executivo costuma ser remunerado
pelo crescimento da empresa e pela valorização
do negócio", diz Abuhab. "Isso
é muito bom para o acionista, mas havia
um conflito aí. Nossa missão
sempre foi ajudar os clientes a resolver problemas."
Tradução: o foco deixou de ser
o financeiro. Mas , além do descompasso,
será que havia espaço para um
executivo de fora? "Estava aqui das 8
às 18 horas, e muitas vezes vinham
me procurar diretamente. Com certeza, isso
também não ajudou."
Desta vez, a história deve ser diferente.
Steffens é um home de total confiança
de Abuhab. Entrou na Datasul como estagiário
em 1982. Dois anos depois, quando estava na
universidade, abriu o primeiro escritório
da empresa em São Paulo. "Eu literalmente
morava na filial", diz Steffens. "A
empresa funcionava numa casa no bairro do
Brooklin. Eu dormia nos fundos, acordava e
já estava no trabalho."
A lealdade foi recompensada. Nos primeiros
anos da Datasul, Abuhab criou um programa
de distribuição de ações
para os funcionários com base no tempo
de casa. Steffens foi um grande beneficiário
dessa política. Chegou a ter 10% do
capital da empresa (esse porcentual desde
então foi diluído). Hoje, é
o único acionista individual da empresa,
ao lado do fundador.
Formado em processamentos de dados, com especializações
em marketing e administração
de empresas, Steffens já ocupou diversos
cargos na diretoria da Datasul. O mais recente
foi a diretoria de produtos. Sobre o relacionamento
com Abuhab, ele diz não estar preocupado.
"Acho que nos últimos 20 anos
foram suficientes para que eu entendesse bem
como lidar com 'seu Miguel' ", afirma,
entre risos. Se o lado do relacionamento está
bem resolvido, o futuro do negócio
da Datasul depende em boa parte de novas iniciativas
sob sua responsabilidade.
Os negócios vão bem, é
verdade. Uma mudança radical no modelo
de gestão, que desde 2001 transformou
a Datasul numa rede de 38 franquias (sete
de desenvolvimento de software e 31 de vendas),
deu certo. Os lucros dobraram: 10 milhões
de reais em 2001 para 20 milhões no
ano passado. Ao transformar os departamento
de uma grande empresa em pequenos negócios,
a Datasul conseguiu disseminar a cultura de
risco que sempre moveu Abuhab. "O regime
celetista era oneroso demais para o nosso
desafio de crescimento", diz Abuhab.
Com o novo modelo, conseguimos injetar um
ímpeto empreendedor nas pessoas."
No prédio de quatro andares no bairro
do Bom Retiro, entre o Aeroporto e o centro
da cidade, os sinais desse tal ímpeto
estão espalhados por toda parte. Além
de brigar o comando da corporação,
há sete franquias instaladas na sede
da empresa, um para cada um dos módulos
que compõe o coração
de sistema de gestão integrado da companhia.
No corredor que leva à área
de logística, um cartaz informa que
as cotas da franquia valiam 11 reais e 20
centavos em fevereiro, uma valorização
de quase 3% em relação ao mês
anterior. No ano passado, os sócios
viram suas cotas se valorizar cerca de 35%.
"Metade dos nossos 180 funcionários
também são sócios",
diz Moacir Cardoso, diretor da franquia de
logística. "Por um lado, isso
é bom, por produzir um comprometimento
que antes não havia. Só criou
um pequeno problema de organização:
algumas decisões são tomadas
em reuniões com todos os acionistas",
afirma Cardoso.
Nos primeiros meses de implementação
do sistema, porém, os recém-convertidos
empreendedores não estavam tão
bem-humorados. Além da "incerteza
da sobrevivência", como diz Cardoso,
houve alguns ajustes importantes a fazer.
Um dos principais deles diz respeito ao desenvolvimento.
No modelo original, previa-se que cada franquia
reinvestisse uma porcentagem de suas receitas
no aperfeiçoamento dos respectivos
programas. Só que isso criou um problema,
pois o ERP é um produto modular: o
cliente pode comprar apenas o software de
controle financeiro ou de recursos humanos,
por exemplo. No plano original, as áreas
que mais vendessem teriam seus produtos cada
vez melhores -- e as com menos faturamento
teriam um software cada vez menos competitivo.
Ou seja, havia o risco de o produto completo
ficar desequilibrado. No ano passado, a regra
mudou. Agora, há um fundo comum de
desenvolvimento, cujos recursos são
alocados de acordo com o interesse global
da companhia.
É aí que entra a missão
de Jorge Steffens. De cada real faturado pela
Datasul, 95 centavos vêm dos ERPs. Mais:
70% das receitas são de manutenção,
ou seja, de clientes que já têm
sistemas de gestão em funcionamento.
Embora ainda haja espaço para crescimento
nesse mercado, a disputa será cada
vez mais acirrada. As multinacionais já
esgotaram o filão das grandes corporações,
e agora todos vão competir pelos mesmos
clientes.
Os ERPs são a fundação
tecnológica dos negócios. Agora
é o momento de partir para a próxima
camada: programas que ajudem a tirar valor
das informações. Em novembro
passado, a Datasul comprou a Perfil, empresa
que produz um software de relacionamento com
consumidores (CRM), e criou uma nova franquia
para desenvolver um sistema de business intelligence,
basicamente uma maneira de facilitar a análise
das informações mais importantes
para uma empresa. A Datasul dá os primeiros
passos em ambas as tecnologias, mas Steffens
diz que esse é o menor dos problemas.
"Nossa clientela é fiel. São
empresas que não querem o que há
de mais novo, porque isso dá trabalho",
afirma Steffens.
Outra aposta é na produtividade. Sob
a coordenação de Steffens, deve
começar a operar ainda neste mês
uma fábrica de software (até
a conclusão desta edição,
o negócio não tinha nome definido).
O objetivo é atender às demandas
da Datasul e também de clientes externos.
"Programação e teste são
tarefas repetitivas, que podem -- e devem
-- ter um rígido controle de qualidade",
diz Steffens. "Além disso, há
blocos inteiros de programas que podem ser
reaproveitados. Isso significa mais lucratividade.
" Assim como no caso das franquias, o
objetivo é criar uma relação
de cliente e fornecedor dentro da rede de
franquias.
Enquanto o sucessor se dedica ao dia-a-dia
da Datasul, "seu Miguel" tem planos
ambiciosos para seus outros negócios.
O que está em estágio mais avançado
é a Neogrid, empresa de comércio
colaborativo também com sede em Joinville.
Fundada há pouco mais de três
anos, a empresa é a materialização
de uma idéia que mais fascina Abuhab
-- a integração eletrônica
entre as empresas. Inspirado nas idéias
do guru da administração Eliyahu
Goldratt (com quem fundou uma empresa de consultoria,
a Goldratt Consulting), Abuhab agora não
se cansa de criticar o que chama de "ortodoxias".
No mundo dos negócios, a principal
delas diz respeito ao relacionamento entre
as empresas: "As empresas querem que
o consumidor compre aquilo que elas previram.
Hoje, vivemos a ortodoxia do empurra-empurra
de estoques", diz Abuhab. "É
o modelo do ar-condicionado: esfria aqui dentro,
mas esquenta lá fora."
A aposta da Neogrid é que as cadeias
de negócio sejam cada vez menos parecidas
com uma montadora e mais com uma empresa de
serviços públicos, capaz de
providenciar a reposição do
produto de acordo com a necessidade do cliente.
Até agora, já foram investidos
cerca de 14 milhões de reais na Neogrid.
Dirigida por Antonio Carlos Correa, empreendedor
de Joinville, a empresa opera num sistema
de prestação de serviços:
paga-se de acordo com a utilização
do produto.
A Neogrid tem 200 clientes. Correa diz que
a empresa ainda não é lucrativa,
mas está otimista com as perspectivas.
A idéia de colaboração
não é exclusiva da Neogrid,
mas está em gestação
em Joinville desde 1997. Além disso,
o produto foi adaptado para a tecnologia Java,
o que torna sua implementação
mais rápida -- hoje, poucas empresas
estão dispostas a esperar meses para
que um sistema comece a funcionar. "Um
de nossos clientes já reduziu seus
estoques em 60% e, graças a isso, pôde
aumentar a oferta de produtos", diz Correa.
Em março, o produto foi apresentado
na CeBit, na Alemanha, uma das maiores feiras
de tecnologia do mundo, e despertou interesse
de empresas britânicas e holandesas.
A outra ortodoxia que tem merecido atenção
de Abuhab é a área médica.
Sem alarde, a Datasul criou uma divisão
para tentar diminuir a fragmentação
das informações que circulam
entre médicos, laboratórios,
hospitais e planos de saúde. "Calculamos
que o setor perca cerca de 4 bilhões
de reais por ano por causa dessa ineficiência",
diz Marco Cruz, responsável pela Datasul
Medical. Eis a idéia: as informações
médicas básicas de cada paciente
e todos os procedimentos (receitas, exames
e intervenções) ficarão
armazenados num único ponto e podem
ser acessados pela internet. Os maiores interessados
são os planos de saúde. Quatro
deles (dois de Joinville, um de Salvador e
um de Recife), com cerca de 170 000 vidas,
testam o sistema.
Até agora, afirma Cruz, foram investidos
10 milhões de reais na Datasul Medical.
"Muitos dos sistemas desenvolvidos para
a Neogrid serão reaproveitados",
diz Abuhab. Só que, neste caso, a tecnologia
é o fator menos importante para o sucesso
da empreitada. Pelas contas de Cruz, 70% de
todos os gastos da área de saúde
passam pelas canetas dos médicos. O
desafio é fazer com que eles passem
não só a utilizar computadores
nos consultórios mas também
o sistema desenvolvido por Cruz e sua equipe.
Como se vê, não será por
falta de trabalho que Miguel Abuhab sentirá
a tentação de voltar ao dia-a-dia
da Datasul.
OS NEGÓCIOS DE "SEU MIGUEL"
Longe do dia-a-dia da Datasul, Miguel Abuhab
quer se dedicar a outros empreendimentos.
NEOGRID Também com sede em Joinville,
a empresa oferece serviço de integração
entre os ERPs de uma cadeia de suprimentos.
A idéia é permitir a redução
de estoques para cortar custos e aproximar
a produção da demanda pelo produto
final.
GOLDRATT CONSULTING Empresa de consultoria
que baseia seu trabalho nas teorias do guru
israelense Eliyahu Goldratt. Ele é
um ferrenho defensor da integração
entre as cadeias produtivas e do fim do empurra-empurra
de estoques.
DATASUL MEDICAL Desenvolve um sistema para
centralizar as informações médicas
dos clientes de planos de saúde para
reduzir fraudes e melhorar a qualidade dos
diagnósticos. Hoje é uma divisão
da Datasul, mas a idéia é torná-la
uma empresa à parte.
FÁBRICA DE SOFTWARE Estabelecida nos
mesmos moldes de uma franquia, a fábrica
vai fazer o trabalho "braçal"
do desenvolvimento de software: escrever e
testar os códigos encomendados pelos
desenvolvedores. Além disso, poderá
prestar serviços para terceiros (como
bancos ou grandes empresas).
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