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Hotéis – uma ortodoxia
Por Miguel Abuhab

- Sinto lhe informar, mas o seu quarto somente ficará disponível às 2 horas. Você já ouviu isto?

Ortodoxia é tudo aquilo que fazemos mas não sabemos por que fazemos. Não queremos ouvir e não queremos falar, simplesmente aceitamos as coisas como são.

Uma das questões a serem respondidas refere-se ao uso da tecnologia. Quando devemos usar a tecnologia?

Segundo Eliyahu Goldratt, antes da tecnologia havia barreiras para se conseguir determinados objetivos e assim foram criadas regras de convivência em função daquelas barreiras. Porém, quando a barreira foi removida, na maioria das vezes as regras continuaram as mesmas.

Um bom exemplo disto é o que acontece nos hotéis.

Antes da tecnologia, os hotéis tinham que trabalhar com seus sistemas de reservas e a tecnologia então existente era a de lápis e papel. Assim, foram criadas regras compatíveis com as limitações tecnológicas da época. Ou seja, a regra que se criou é que “as diárias terminam a meio dia”. Naquele tempo, não tinha como ser diferente, e quando tudo dava certo, o hóspede chegava ao hotel e lá estava a sua reserva.

Com a evolução da tecnologia, os hotéis passaram a se informatizar e fizeram a reengenharia dos processos. Os engenheiros de software perguntaram sobre as regras existentes e de pronto lhes responderam que a regra é: “check in ao meio dia e check out a meio dia”.

Imediatamente foram desenvolvidos softwares que agilizaram os processos existentes.

Hoje, quando fazemos um vôo noturno, não é raro chegar às 7 horas da manhã a um hotel cinco estrelas em uma das principais capitais do mundo e obter como resposta: “Sinto lhe informar, mas o seu quarto somente ficará disponível às 2 horas”. Isto já deve ter acontecido com todos que viajam com certa freqüência em vôos internacionais.

Quando reclamamos ao gerente do hotel, ele diz que, para termos o check in garantido às 7 horas da manhã, deveríamos ter feito a reserva para o dia anterior, e evidentemente pagar por mais uma diária.

Quantas palestras todos nós já assistimos sobre excelência de serviços e ouvimos exemplos maravilhosos de serviços oferecidos por hotéis em todo mundo. Mas, um detalhe: o hóspede só passa a ter o serviço de excelência após o check in. Enquanto isto não passa de um incômodo na recepção do hotel perguntando se o quarto já está pronto.

Na hora do check out, os problemas são parecidos. Aquele que terá um dia de trabalho, deve fazer o check out logo cedo, deixar a mala no storage do hotel e se quiser viajar com roupa mais confortável, deve se trocar no banheiro da recepção. Quem está a turismo tenta inicialmente conseguir um late check out, e quando consegue para as duas ou três horas da tarde fica feliz da vida por esta “conquista”. Porém, após esta vitória parcial, acabam acampando na recepção do hotel para poder finalmente ir para o aeroporto no início da noite.

Será que até hoje os hotéis não perceberam o incrível engano? Será que não perceberam a ortodoxia em que se encontram?

Antes da tecnologia era admissível este tipo de serviço, mas hoje em dia, com toda a tecnologia existente e a luta por oferecer melhores serviços aos clientes, esta falha é inadmissível, ou, no mínimo, prejudicial aos próprios hotéis.

O fato é que a tecnologia, para ser bem aplicada, não pode ser usada apenas para reengenheirar os processos. A tecnologia tem que mudar as regras que existiam antes da limitação tecnológica.

Ao se perguntar sobre os processos atuais, deveriam ser questionadas as regras existentes e, aí sim, propor novas regras com os benefícios da tecnologia.

Ao se fazer uma reserva nos dias de hoje, os sistemas deveriam estar preparados para que se informasse a hora do check in e a hora do check out. Assim, o sistema de reservas poderia fazer as reservas de acordo com a hora de entrada e saída de cada hospede, programar melhor os serviços das camareiras e ainda cobrar por hora adicional, o que seria excepcional para os hotéis que estão procurando aumentar as suas receitas, e melhor ainda para aqueles hóspedes que viajam a negócios e não têm tempo para perder. Aliás, os hospedes mais disputados pelos hotéis, os executivos.

Março/2003

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor, e podem não representar a opinião das entidades das quais participa.

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® Miguel Abuhab 2004. Todos os direitos reservados.