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Poluição da Humanidade
Por Miguel Abuhab

Nos últimos anos, presenciamos o processo de globalização e a maioria das pessoas, não podendo agir de alguma forma, passa a assisti-lo passivamente.

Absolutamente não sou contra este processo. Não sou contra o lucro das empresas. Todas as empresas estão totalmente certas em procurar crescer e aumentar o lucro para seus acionistas. Isto é o que move nosso mundo. Eu, pessoalmente, tenho contribuído para este processo. Cada um de nós é envolvido nele. Já nas faculdades, seja de engenharia, de administração de empresas e tantas outras. Somos ensinados a procurar a redução de custos para melhor servir às empresas onde trabalhamos e, conseqüentemente, aos seus clientes.

O processo de globalização teve início quando os países desenvolvidos perceberam que seus mercados internos estavam próximos da saturação e com um crescimento muito pequeno se comparado às possibilidades de crescimento nos países emergentes. Foi daí que as empresas, com base nestes países desenvolvidos, decidiram ter participação em outros mercados com grande potencial de crescimento. E a forma mais rápida de crescimento é através de aquisições.

Assim, nos últimos anos vimos uma avalanche de fusões e aquisições. Umas empresas passam a adquirir o controle de outras em outros países e procuram reduzir os custos, com o objetivo de serem mais competitivas no país e, com isto, oferecerem produtos melhores e mais baratos ao consumidor, aumentando evidentemente a sua participação no mercado.

De maneira geral, as áreas mais atingidas são as de pesquisa e desenvolvimento, administração e finanças. Com uma grande estrutura de marketing e ainda recursos de capital a um preço muito baixo se comparado à taxa de juros nos países em desenvolvimento, fazem investimentos maciços para distribuição e automação da produção. Logicamente, as empresas locais, tendo que competir com as multinacionais, acabam lançando mão de todos os recursos possíveis para reduzir os custos. Até aí tudo bem, não fossem os milhares de postos de trabalhos eliminados neste processo.

Vamos ao exemplo A: uma empresa opera com 50 operários e sabe da existência de uma máquina que, ao mesmo custo, pode substituí-los. A empresa imediatamente faz a substituição, pois, ainda assim, estará economizando outras despesas indiretas, tais como: refeitório, vestiários, custos no departamento pessoal, treinamento, e ainda há o argumento de que a máquina não falta e não entra em greve.

Vamos ao exemplo B: Uma empresa tem um processo de limpeza de seus produtos com materiais naturais, mas sabe de um produto químico que faz esta limpeza muito mais rapidamente a um custo menor. A empresa não tem dúvida e passa a adotar o produto químico, embora este possa trazer uma poluição ambiental.

Vimos os casos dos exemplos acima correndo quase que diariamente nos últimos 20 anos.

No caso do exemplo B não haveria problema ambiental se fosse apenas uma empresa a poluir o rio, pois este produto químico acabaria de alguma forma sendo diluído na grande massa ambiental. E, de fato, não tivemos problemas durante muitos anos, até que o número de empresas a adotar processos químicos e sujar os rios foi tão grande que os países desenvolvidos sentiram uma grande ameaça para o ambiente e para a humanidade. Tiveram que se unir, formando organizações que passaram a estudar os problemas ambientais e a adotar leis para que ninguém mais viesse a causar a poluição. Assim, todas as empresas que adotaram processos químicos e que no passado poluíam o ambiente, tiveram que rever seus processos e adotar estações de tratamento de esgoto, evitando assim a poluição dos rios. O custo de tratamento de esgoto certamente elevou o custo operacional destas empresas, mas como todas tiveram que adotar processos semelhantes, isto não favoreceu umas em detrimento de outras.

Voltemos ao exemplo A: Se fosse apenas uma empresa que estivesse substituindo os 50 operários por uma máquina, não teríamos maiores problemas pois o mercado de trabalho absorveria estes operários; mas não é. São milhares de empresas que fazem isto todos os dias.

Imaginem se as montadoras de automóveis chegassem ao ponto de substituir todos os seus operários por robôs. Com isto, estariam dispensando milhares de trabalhadores e poderiam oferecer seus automóveis a preços muito baixos, digamos, a mil reais.

Muito provavelmente, não haveria consumidores para comprar estes carros por mil reais, pois os robôs não consomem os produtos que fabricam.

Se o objetivo das empresas é aumentar a sua participação no mercado, então devemos trabalhar para aumentar o mercado consumidor e não destruir os consumidores como estamos fazendo ao longo dos anos. Devemos girar a roda para o outro lado.

Tudo o que fizemos nestes últimos anos, e eu me incluo neste grupo, foi fazer uma análise de curto prazo dos benefícios para as empresas que trabalhamos. Não pensamos de uma maneira holística. Não pensamos no sistema como um todo, mas apenas parte do sistema; apenas parte da humanidade. Ainda que pensássemos apenas em lucros, porém, no longo prazo, deveríamos estar criando novos consumidores ou novos postos de trabalho.

O fato é que cada posto de trabalho eliminado é um consumidor eliminado na humanidade. No exemplo da empresa A, antes de substituir os operários pela máquina, deveríamos fazer um estudo de quanto custaria esta operação feita por 50 homens em outro país menos desenvolvido. Muito provavelmente, veríamos que seria possível fazer esta operação em outro país com uma redução de custo, mas certamente prevalecendo o posto de trabalho.

Segundo dados do banco mundial, 1,2 bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia. Vejam bem, esta é a população que, de uma certa forma, "vive" com um dólar por dia, pois aquelas que já morreram não entram nesta estatística.

O mundo gasta bilhões de dólares com pesquisas sobre as doenças que mais matam, segundo as estatísticas. Entretanto, não vemos nas estatísticas a fome como uma das causas de morte.

Será que não percebemos que o uso indiscriminado de tecnologia mata mais que câncer?

Todos temos que acordar e perceber que o uso indiscriminado de tecnologia mata mais que a poluição. A isto, chamo "Poluição da Humanidade". O desemprego gera fome e as pessoas morrem de inanição.

Será que ao invés de automatizar o plantio e a colheita do café, não teríamos na Colômbia mais agricultores de café e menos plantadores de coca?

Será que, ao invés de automatizar o processo de algodão, fiação e tecelagem, não teríamos nos países subdesenvolvidos mais empregos e menos desnutrição?

Será que, ao invés de automatizar os processos de fabricação de tapetes, não teríamos nos países do oriente médio mais ocupação nos trabalhos artesanais e menos radicalismo?

Será que, ao invés de automatizar tantos e tantos processos no mundo, não teríamos mais pessoas dedicando-se a processos produtivos e menos pessoas dedicando-se ao terrorismo?

Certamente, a falta de uma atividade básica para as pessoas de baixa renda faz com que pensem em novas formas de vida, independente se isto é aceito pela sociedade como algo digno e justo, ou não. Drogas, prostituição, violência e terrorismo são fugas para quem não consegue ter uma vida dignificada.

E agora? O que temos ainda por vir? Agora são as colheitadeiras de cana de açúcar que irão ceifar milhares de postos de trabalho. O que irá acontecer com aquele que, como último recurso para subsistência de sua família, decidiu ser cortador de cana? Será que ele terá um novo emprego, ou teremos mais violência?

Este processo é como a poluição de um rio. Cada um acha que o seu lixo não irá poluir o rio, mas quando milhares de pessoas passam a jogar seus lixos no rio, temos uma poluição incontrolável e devastadora. Todos nós entendemos que mata, que devemos fazer alguma coisa, mas nenhuma empresa, isoladamente, começará este processo se os seus concorrentes não fizerem o mesmo.

Estamos todos passivos assistindo à destruição do nosso mundo, enquanto aqueles que determinam o destino da humanidade, envolvidos no dia a dia, pensam apenas no curto prazo.

A forma de como estamos conduzindo a economia pode ser o ótimo local para uma empresa, e para o seu país, mas não é nem mesmo razoável para a humanidade.

É preciso que os países desenvolvidos, a exemplo do problema do meio ambiente, unam-se e percebam que o terrível episódio do dia 11 de setembro é uma das conseqüências desta "Poluição da Humanidade" e entendam que esta tem que ser controlada.

Da mesma forma que existem tratados de não proliferação de armas nucleares, deveriam haver tratados de não proliferação de tecnologia, pois esta também mata, mas só que em longo prazo.

De que adianta canalizar as riquezas do mundo para poucos países, se estes recursos têm que voltar aos países subdesenvolvidos como dinheiro do FMI? Ou como ajuda humanitária? Ou como combate as drogas? Ou, pior ainda... em guerra?

Não seria melhor destinar estes recursos aos países subdesenvolvidos na forma de importação de fios de algodão, cana de açúcar, ou produtos agrícolas em geral? Sem dúvida, estaríamos gerando trabalho e uma massa de consumo, que inicialmente seria de alimentos, mas em poucas décadas seria consumo de outros produtos que iriam impulsionar a economia mundial.

Há a necessidade da criação de órgãos governamentais que determinem quais são as tecnologias que podem ser usadas e para que. Lamentavelmente, já poluímos demais esta nossa humanidade e agora, para limpar este nosso rio, muitas ações devem ser tomadas. Para despoluir o rio será preciso, primeiro, deixar de poluir. Se estes órgãos vierem a decidir que não serão mais fabricadas as colheitadeiras de cana de açúcar, ou outras máquinas que substituam grande número de trabalhadores, então todos os produtores estarão novamente com as mesmas ferramentas para seus processos produtivos.

A exemplo do que é feito com importação dos produtos agrícolas, quanto ao uso indiscriminado de defensivos, não seria mais econômico para os países ricos pagarem um preço mais alto para comprar café da Colômbia sem o "agrotóxico" da tecnologia e reduzir o problema de drogas no mundo?

Se, para importar produtos, as empresas nos países desenvolvidos exigem ISO9000 para certificação do processo da qualidade e ISO14000 para proteção de meio ambiente, por que não criamos uma ISO19000 para proteção contra a "Poluição da Humanidade"?

Da mesma forma que a empresa que polui um rio deve limpá-lo; da mesma forma que uma empresa que produz baterias é responsável por reciclar seus produtos, poderíamos então pensar que aquela empresa que reduz um posto de trabalho deveria gerar outro automaticamente, ainda que em outro país a um custo menor. Esta seria a forma correta de globalização, pensando de uma maneira holística.

Não quero dizer com isto que os empresários são os causadores de todos os problemas do mundo, mas quero dizer que todos nós empresários, inconscientemente, contribuímos para esta "Poluição da Humanidade".

Certamente a tecnologia trouxe grandes benefícios ao nosso mundo. Trouxe a cura de muitas doenças, permitiu a agilidade dos processos, trouxe o grande avanço das comunicações, da pesquisa espacial e da Internet.

Porém, o uso de tecnologia, para substituir postos de trabalho daqueles que não tem outras alternativas como forma de vida, é prejudicial à humanidade.

O que fizemos até aqui está feito, mas agora que temos uma consciência maior de nosso papel na humanidade, temos que levar esta consciência aos países que determinam o destino do mundo, para que no futuro estes sejam mais ricos. Não importa! O que importa é que os pobres sejam menos pobres!

Afinal, a tecnologia é necessária, e muitas vezes é mais que suficiente.

Outubro/2001.

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor, e podem não representar a opinião das entidades das quais participa.

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® Miguel Abuhab 2004. Todos os direitos reservados.