A
Síndrome da Competitividade
Por Miguel Abuhab
Todos aprendemos nas escolas e nas faculdades
de engenharia ou de administração,
ou ainda nos MBA, como melhorar as empresas
para quais trabalhamos, seja por redução
de custos, ou por melhoria de processos. As
empresas e as pessoas em geral foram treinadas
e educadas a buscar o ótimo.
Para ilustrar melhor nosso raciocínio
é importante observar o diagrama do conflito
que normalmente existe em uma empresa:

O objetivo de uma empresa é aumentar
o retorno sobre o investimento. Para
isto, de um lado, é necessário
aumentar as vendas o que implica em manter
estoques, mas por outro lado para aumentar
o retorno sobre o investimento é
necessário diminuir o investimento,
ou seja, reduzir os estoques. Isto é
um conflito.
Se a empresa deixar que os estoques sejam
administrados pelo pessoal de vendas e marketing,
os estoques subirão a níveis
insuportáveis colocando em risco o
seu objetivo principal que é o retorno
sobre o investimento; por outro lado,
se deixar apenas o pessoal de finanças
cuidar dos estoques, estes cairão a
um nível também indesejável,
fazendo com que a empresa perca vendas e também
colocando em risco o objetivo principal, que
é aumentar o
Retorno Sobre o Investimento.
Cada um dos departamentos dentro da empresa
procura o seu ótimo local, independente
de ser o melhor para empresa. O ótimo
global para a empresa só é alcançado
com a determinação do Presidente,
propondo uma solução de compromisso
entre os objetivos conflitantes.
O Presidente, que é a autoridade,
define critérios, adotando soluções
de compromisso entre os dois interesses conflitantes
dentro da organização. O Presidente
determina que deve ser mantido um nível
de estoque reduzido, porém observando
que seja preservado o mesmo nível de
atendimento aos clientes. Para os itens muito
caros será mantida apenas uma peça
em estoque, e itens que têm baixo giro
não serão mantidos em estoque,
serão comprados por encomenda a cada
venda realizada. Ou seja, não podemos
manter estoques a qualquer custo.
Vamos agora analisar o nosso sistema ambiental.
Com a descoberta dos motores a combustão
interna e dos sistemas de geração
de energia houve a Revolução
Industrial, proporcionando o desenvolvimento
industrial, a geração de empregos,
o desenvolvimento econômico e, em última
instância, o Bem-Estar da Humanidade,
que é o objetivo maior. Lamentavelmente,
para alcançar este objetivo maior tivemos
como efeito indesejável a poluição
ambiental.
Vamos analisar o diagrama abaixo:

Para o Bem-Estar da Humanidade
é necessário o Desenvolvimento
Industrial, e para haver o Desenvolvimento
Industrial, infelizmente é necessário
Poluir o Ambiente.
Observem que antes da Revolução
Industrial os ambientes estavam em equilíbrio,
mas o homem em busca do desenvolvimento industrial
alterou este equilíbrio, procurando
o seu ótimo local.
Toda vez que temos um ambiente em equilíbrio
e definimos dentro dele um espaço,
no qual procuramos o ótimo local, estaremos
introduzindo efeitos indesejáveis fora
dele. O ótimo local é
como o ar condicionado: esfria de um lado,
mas esquenta do outro.
Se usarmos um processo químico para
limpeza ou beneficiamento, sem dúvida
teremos benefícios na empresa, mas
estaremos gerando como efeito indesejável
a poluição ambiental. Se utilizarmos
motores a combustão interna para gerar
energia e impulsionar máquinas e veículos,
certamente teremos os benefícios das
máquinas e dos veículos automotores,
mas estaremos gerando como efeito indesejável
a poluição ambiental.
No inicio do processo do Desenvolvimento
Industrial, as empresas passaram a poluir
o ambiente sem notar os efeitos indesejáveis
que estavam causando; pois, inicialmente,
eram poucos os agentes poluidores, mas, com
o passar das décadas, hoje são
milhões de agentes poluidores com visível
degradação do ambiente.
Se compararmos com o processo das empresas
administrando o estoque, era como se deixássemos
o gerente de vendas cuidar das compras e dos
estoques. Não havia limites. É
isto que aconteceu com o Desenvolvimento Industrial,
a busca do Ótimo Local não percebeu
o efeito indesejável da poluição
ambiental.
Décadas mais tarde, os países
perceberam que havia um ramo negativo:

Perceberam que para haver o Bem-Estar
da Humanidade, que é o objetivo
principal, é também necessário
Manter o Equilíbrio Ambiental,
e para isto é necessário Despoluir
o Ambiente.
O mundo percebeu que corria grande perigo.
Não podíamos apenas pensar no
ótimo local. Tínhamos que pensar
no ótimo global . Tínhamos que
pensar em uma forma de resolver o conflito.
Toda vez que há um conflito, existe
um ponto a partir do qual se coloca em risco
o objetivo principal, neste caso, o Bem-Estar
da Humanidade. É necessário
identificar uma solução de compromisso.
O mundo percebeu que o ótimo
global não é a soma dos ótimos
locais.
Os países preocupados em manter
o equilíbrio ambiental criaram
diversas estratégias, leis, e a ISO
14000. Hoje, pela ISO 14000, se uma empresa
produz, por exemplo, bateria para automóveis,
deve recolher as baterias usadas para reciclar,
pois estas não podem ser despejadas
no meio ambiente. Criou-se a agenda 21 e o
protocolo de Kyoto, que propõem controlar
os níveis de emissão de monóxido
de carbono de cada país, havendo débitos
e créditos que podem ser comercializados
de maneira a evitar a poluição
descontrolada.
A fase de Desenvolvimento Industrial trouxe
um grande Desenvolvimento Econômico
para o mundo. Trouxe a geração
de empregos e o Bem-Estar da Humanidade. As
pessoas recebiam constantemente novas ofertas
de empregos e saíam para uma nova oportunidade
ganhando mais. Os recém formados já
tinham os seus empregos garantidos até
mesmo antes de se formar.
A roda girava
a toda velocidade no sentido de crescimento
da economia, proporcionando o Bem-Estar da
Humanidade.
Embora o mundo tenha percebido muito tempo
depois o problema da poluição
ambiental, este finalmente foi endereçado
e talvez venhamos, a um custo muito alto para
o mundo, reverter este processo que já
estava fora de controle. Hoje terminou a fase
de Desenvolvimento Industrial
e passamos a viver a fase da Competitividade.
Agora não basta o desenvolvimento Industrial;
agora temos que ser competitivos.
Vamos analisar o diagrama abaixo:

Para haver desenvolvimento econômico,
é necessária a competitividade
e para haver competitividade
é necessário automatizar
e demitir. As empresas de todo o
mundo procurando o desenvolvimento econômico
objetivaram a competitividade, passaram a
automatizar e lamentavelmente a demitir.
Hoje sabemos de tantos e tantos empregos
que foram eliminados em função
da competitividade. Os milhares de empregos
que havia nas empresas de fiação
e tecelagem, nas linhas de montagem de veículos,
na agricultura e em tantas outras atividades
foram simplesmente eliminados; mas isto não
foi apenas no Brasil, isto ocorreu em todos
os países dito “em desenvolvimento”.
Sempre acreditamos que a saída dos
problemas para os países em desenvolvimento
seria a competitividade e todos sabemos que
as empresas passaram a ser mais competitivas.
Hoje produzem o dobro, ou o triplo do que
produziam no passado, com a metade ou um terço
das pessoas. Porém, se analisarmos
os indicadores destes países “em
desenvolvimento” vemos que a maioria
deles demonstram que houve uma piora na qualidade
de vida.
Se estamos num buraco a primeira
coisa que temos a fazer é parar de
cavar.
Precisamos entender que estamos num buraco.
Só que agora o custo de um robô
é 20% do que era há anos atrás,
o que significa que agora cavamos nosso buraco
mais rapidamente.
Temos que perceber que a competitividade
pura e simples não é a saída
para os problemas dos países e do mundo.
Vamos fazer uma análise holística
do problema: alguns países, em nome
da competitividade, passam a automatizar seus
processos e deixam de importar produtos de
outros, procurando obviamente o seu ótimo
local. Estes países em desenvolvimento,
com suas empresas lutando pela sobrevivência,
acabam também procurando a competitividade,
automatizando e lamentavelmente demitindo.
A cada ciclo deste processo vemos pessoas
procurando empregos por salários menores,
até o ponto em que aquele que está
no último nível de sobrevivência
não encontra mais empregos. A
roda que girava a toda velocidade no sentido
de crescimento da economia, proporcionando
o Bem-Estar da Humanidade, agora passou a
girar para o outro lado.
Vamos analisar por exemplo a automação
da agricultura. Os países ricos exportam
seus equipamentos para automatizar a agricultura,
a exemplo do café. Os agricultores,
como forma de sobrevivência acabam plantando
a cocaína, que volta aos países
ricos em forma de droga, e estes por sua vez
gastam mais para combater as drogas do que
lucraram vendendo seus equipamentos para automatizar
a agricultura.
Infelizmente, o mundo ainda não percebeu
que já passou a fase do desenvolvimento
industrial e da poluição. Agora
estamos na fase da competitividade e da automação
incontrolada, gerando demissões. Nisto
incluímos a globalização
e as mega fusões.
O novo conflito que o mundo está enfrentando
é mostrado abaixo:

Para haver desenvolvimento econômico
tem que haver consumidores
e para haver consumidores
é necessário manter
e gerar empregos. Isto é uma
solução de compromisso. Toda
vez que há uma solução
de compromisso existe um limite a partir do
qual o objetivo principal fica comprometido.
O que está havendo é como se
deixássemos o departamento de vendas
cuidar dos estoques das empresas. Não
está sendo considerado o custo social
deste desemprego no mundo. Aliás, hoje
os próprios países ricos já
começam a sentir os efeitos desta automação
sem limites.
Temos que entender que o limite da automação
é aquele que coloca em risco os empregos
nos níveis mais baixos nos países
em desenvolvimento. O mundo não pode
fabricar equipamentos, como por exemplo colheitadeira
de cana, mesmo para ser usada nos países
desenvolvidos, enquanto houver no mundo pessoas
que tenham como última alternativa
de ganhar a vida honestamente cortar cana
nas usinas de açúcar.
Imaginem se as montadoras de automóveis
chegassem a ponto de substituir todos os seus
operários por robôs. Com isto
estariam dispensando milhares de trabalhadores
e poderiam oferecer seus automóveis
a preços muito baixos, digamos quinhentos
dólares.
Muito provavelmente não haveria consumidores
para comprar carros por este preço,
pois os robôs não consomem
os produtos que fabricam.
Hoje cada empresa automatiza e demite seus
empregados achando que vai vender seus produtos
para os empregados dos outros.
Ainda que não pensássemos no
social, mas apenas em lucros, no longo prazo,
deveríamos estar criando novos consumidores
ou novos postos de trabalho.
O fato é que cada posto de
trabalho eliminado num país
desenvolvido é um consumidor
eliminado na humanidade.
Segundo dados do banco mundial, 1,2 bilhões
de pessoas vivem com menos de um dólar
por dia. Vejam bem, esta é a população
que de uma certa forma “vive”
com um dólar por dia, pois aqueles
que já morreram não entram nesta
estatística.
Todos temos que acordar e perceber que a
competitividade incontrolada mata mais que
a poluição. A isto
chamo de “Síndrome da Competitividade”.
O desemprego gera fome e as pessoas morrem
de inanição.
Será que ao invés de
automatizar o plantio e a colheita do café,
não teríamos mais agricultores
de café e menos plantadores de coca?
Será que ao invés de automatizar
o processo de algodão, fiação
e tecelagem, não teríamos nos
países subdesenvolvidos mais empregos
e menos desnutrição?
Será que ao invés de automatizar
os processos de fabricação de
tapetes, não teríamos nos países
do oriente médio mais ocupação
nos trabalhos artesanais e menos radicalismo?
Será que ao invés de automatizar
tantos e tantos processos no mundo, não
teríamos mais pessoas se dedicando
a processos produtivos e menos pessoas se
dedicando ao terrorismo?
Certamente, a falta de uma atividade básica
para as pessoas de baixa renda faz com que
pensem em novas formas de vida, independente
se isto é aceito pela sociedade como
algo digno e justo, ou não. Drogas,
prostituição, violência
e terrorismo são fugas para quem não
consegue ter uma vida dignificada.
E agora? O que temos ainda por vir? Agora
são as colheitadeiras de cana de açúcar
que irão ceifar milhares de postos
de trabalho. O que irá acontecer com
aquele que, como último recurso para
subsistência de sua família,
decidiu ser cortador de cana? Será
que ele terá um novo emprego, ou teremos
mais violência?
A forma de como estamos conduzindo a economia
pode ser o ótimo local para uma empresa
e para o seu país, mas não é
nem mesmo razoável para a humanidade.
Este processo é como a poluição
de um rio. Cada um acha que o seu lixo não
irá poluir o rio, mas quando milhares
de pessoas passam a jogar seus lixos no rio,
temos uma poluição incontrolável
e devastadora. Todos nós entendemos
que mata, que devemos fazer alguma coisa,
mas nenhuma empresa isoladamente começará
este processo se os seus concorrentes não
fizerem o mesmo.
Quando temos um problema complexo, não
precisamos resolver tudo para melhorar o todo.
Precisamos identificar e resolver o problema
restritivo para melhorar o todo.
No caso da humanidade, já percebemos
que a poluição gerada pelo homem
em busca do ótimo local não
contribuiu para o ótimo global. Tivemos
que adotar soluções drásticas
para conter a destruição do
meio ambiente a ainda não temos o processo
sob controle.
Lamentavelmente, o processo de competitividade
continua sem limites colocando em risco o
objetivo principal que é o bem-estar
da humanidade.
A exemplo do que foi feito com a poluição
ambiental, em que foi criado o protocolo de
Kioto para compensar créditos e débitos
de poluição por monóxido
de carbono, deveríamos criar indicadores
para identificar as empresas que geram consumidores
e as que geram desemprego.
Se para importar produtos, as empresas nos
países desenvolvidos exigem ISO9000
para certificação do processo
da qualidade e ISO14000 para proteção
de meio ambiente, por que não criamos
uma ISO19000 para proteção contra
a “Síndrome da Competitividade”?
O que fizemos até aqui está
feito, mas agora que temos uma consciência
maior de nosso papel na humanidade, temos
que levar esta consciência aos países
que determinam o destino do mundo, para que
no futuro estes sejam mais ricos. Não
importa! O que importa é que os pobres
sejam menos pobres!
Afinal, a tecnologia é necessária,
e muitas vezes é mais que suficiente.
Maio/2003
As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor, e podem não representar a opinião das entidades das quais participa.
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