Agência
de Bancos, uma Ortodoxia
Por Miguel Abuhab
Ortodoxia é tudo aquilo que fazemos sem saber
por que fazemos. De maneira geral, as ortodoxias
tiveram as suas origens nas barreiras tecnológicas.
Antes da existência da tecnologia, as pessoas
tiveram que definir regras para poder atender
às suas necessidades, mas, de maneira geral,
após quebrar a barreira tecnológica, as regras
continuaram as mesmas.
Para melhor atender aos seus clientes, os bancos
criaram diversas agências, e, quanto maior o número
delas, maior o potencial de clientes para cada
banco, uma vez que a proximidade era fundamental
para a escolha do banco pelo cliente.
A empresa que tinha operações em várias
cidades
acabava abrindo conta na agência mais próxima
de seu escritório, e, para manter a rotina de
seus negócios, periodicamente fazia transferência
de fundos da matriz para as filiais.
Se uma pessoa física morasse em uma determinada
cidade e viesse por algum motivo a mudar para
outra, tinha que abrir uma nova conta no mesmo
banco, fazendo um novo cadastro. Lamentavelmente,
todas as informações então existentes na primeira
agência não eram utilizadas para a nova conta.
Exatamente pelas restrições de comunicação.
Se uma pessoa fizesse uma transação do tipo
de compra de uma casa ou de um carro, deveria
ir à sua agência e solicitar um cheque visado
e, nesse caso, o seu saldo era bloqueado para
a compensação. Não era possível ir a uma outra
agência e ter o cheque visado.
Em função da não disponibilidade de informações,
criou-se um sistema de compensação bancária
para compensar cheques das diversas agências
e dos diversos bancos. Este processo foi o orgulho
do nosso sistema bancário durante décadas. Certamente,
havia a espera de alguns dias para a compensação
do cheque, e com isto os estabelecimentos comerciais
não queriam aceitar cheques de outras praças.
Os fraudadores, corruptos e "foras da lei" abriam
as contas fantasmas, já que era quase impossível
este tipo de controle. Assim, a Receita Federal
e a Procuradoria da República tinham grandes
dificuldades para rastrear as contas.
As contas-correntes eram processadas em máquinas
eletromecânicas e mais tarde por listagens de
computadores, que diariamente eram enviadas
para cada agência. Veio o minicomputador e as
agências passaram a controlar as contas-correntes
de forma integrada, em cada agência, no computador
local.
O Banco Central padronizou os talões de cheques.
Cada cheque deveria conter o número do banco,
o número da agência, o número da conta
corrente
e ainda o CPF/CNPJ do correntista. Isso certamente
facilitou em muito a integração e os processos
de compensação entre os bancos.
Mais uma evolução tecnológica. Agora, com a
evolução das linhas de comunicações e da Internet,
os bancos passaram a centralizar as suas operações
em grandes servidores e rapidamente evoluíram
para oferecer os serviços de Internet, ou Internet-banking.
As diversas agências foram centralizadas no
mesmo servidor. Aí prevaleceu a ortodoxia. As
regras continuaram as mesmas!
A empresa que possui operações em diversas cidades
ainda necessita manter contas distintas em cada
cidade e ainda transferir fundos de uma conta
para outra para poder manter as suas rotinas
diárias. Só que agora pode fazer tudo isto pela
Internet.
A pessoa que muda de cidade ainda tem que abrir
uma nova conta na cidade que passa a morar.
Recentemente, um de nossos diretores foi transferido
de Salvador, na Bahia, para Joinville. Embora
correntista do banco há muitos anos naquela
cidade, teve que abrir uma nova conta agora
na agência de Joinville, fazendo um novo cadastro.
Todas as informações que existiam sobre sua
conta anterior não foram sequer observadas.
Mas estas informações estão fisicamente no mesmo
computador!
Quando viajamos e vamos a um posto de gasolina
para abastecer nosso veículo ainda vemos a placa
"Não aceitamos cheques de outra praça", certamente
pela demora na compensação bancária.
Os fraudadores e os "foras da lei" ainda operam
as contas difíceis de serem rastreadas.
Será que não faltou alguma coisa? Será que não
esquecemos que a tecnologia permitiu derrubar
barreiras? Será que não percebemos a ortodoxia?
Estamos fazendo a mesma coisa que fazíamos há
vinte anos. Apenas de forma mais rápida.
Antes da tecnologia, tivemos que criar as regras;
tivemos que criar um modelo de negócios, criamos
um grande número de agências.
Com a vinda da tecnologia, as barreiras são
derrubadas e as regras devem ser revistas. A
tecnologia derrubou a distância e agora permite
que a informação esteja disponível em qualquer
ponto do País. Portanto, um novo modelo deve
ser construído. Se, antes, o que atraía o cliente
era a proximidade do banco, agora o que atrai
são os serviços mais racionais e eficientes.
Agora não há mais a necessidade de uma conta
em cada agência. Agora podemos ter uma única
conta no banco e sermos atendidos em qualquer
ponto do País. Agora não faz mais sentido ser
"cliente de uma agência", e sim, "cliente do
banco".
Poderíamos estar usando como número da conta
o próprio CPF, ou CNPJ, já que estes números
são absolutamente necessários para a abertura
de uma conta. Certamente, isto seria muito apreciado
pela Receita Federal e pelos Procuradores da
República.
Muitos irão argumentar que existem situações
em que não há necessidade do CPF para abrir
uma conta, como é o caso dos estrangeiros que
utilizam a conta CC5. Talvez seria uma oportunidade
para um melhor controle sobre esta conta
Ainda que não fosse uma iniciativa dos bancos
privados, o próprio Banco Central poderia tomar
medidas e determinar que cada CNPJ/CPF tivesse
uma única conta em cada banco, deixando de existir
o conceito de agência.
Nos talões de cheque constaria apenas o número
do banco e o CNPJ/CPF do correntista. Não seriam
necessários o número da agência e o número da
conta.
Como o CNPJ/CPF passaria a ser o número da conta
em todos os bancos, seria muito mais fácil o
controle de transferências de fundo, isentando
a cobrança da CPMF entre o mesmo CNPJ/CPF.
O processo de compensação deixaria de
existir,
pois cada banco, ao processar um cheque, poderia,
em tempo real, enviar uma transação para atualizar
simultaneamente o saldo de conta corrente em
outro banco.
Qualquer banco poderia receber qualquer cheque
e processar em tempo real.
Certamente, as pessoas da área poderão evoluir
muito em cima destes conceitos.
Sabemos que ainda há providências a serem tomadas.
Haveria a necessidade de disponibilizar as assinaturas
dos correntistas em meio eletrônico para que
pudessem ser conferidas em qualquer ponto de
atendimento. Mas isto é muito pouco em relação
aos benefícios obtidos.
O correntista precisaria ainda designar o gerente
da sua conta que, provavelmente, estaria no
estabelecimento do banco mais próximo.
Finalmente, os grandes beneficiados seriam os
clientes, pois poderiam contar com um serviço
mais racional e eficiente.
Ainda que não se pense nas vantagens para os
bancos, ainda que não se pense nos benefícios
aos clientes, mas que se pense nos benefícios
ao País, tal alteração é de extrema importância.
Já que os bancos travam uma grande disputa para
oferecer um melhor serviço aos seus clientes,
fica aqui a sugestão a toda rede bancária.
Um dos grandes orgulhos de todos nós brasileiros
sempre foi o sistema bancário de nosso País;
porém, para mantermos esta liderança temos que
conquistar mais uma etapa: a conta única.
Fica aqui, portanto, a sugestão também ao Presidente
do Banco Central e aos Presidenciáveis.
Em seu livro "Necessário, mas não Suficiente"
Eliyahu Goldratt explica que a tecnologia é
necessária, mas não é suficiente, explica que
é necessário mudar as regras que existiam antes
da tecnologia.
O acima exposto é mais uma ortodoxia que vem
a confirmar o pensamento desse "Guru" israelense
que desenvolveu a Teoria das Restrições.
Julho/2002
As opiniões aqui expressas são de responsabilidade do autor, e podem não representar a opinião das entidades das quais participa.
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